Há coisas que me fazem sorrir. Não por serem necessariamente cómicas, ou enternecedoras, ou comoventes, ou outra coisa qualquer. Há coisas que me fazem sorrir só porque sim. Porque me batem à porta do lado esquerdo do peito.
Caía a noite. Nas ruas de Lisboa, vultos acotovelavam-se, numa corrida para ver quem chega primeiro a casa. E eu passeio no passeio, com passos de bailarina, porque não tenho pressa. Vou passando os olhos nas nuvens que hoje parecem-me ainda mais bonitas. Despeço-me do sol, que me acena atrás delas. E sonho um dia poder tocar no céu, onde elas vivem.
De repente, fixo o olhar num ponto elevado, para onde já ninguém olha, porque não passa de uma dor de cabeça. O Tejo precisa de obras. Não pode esperar mais, parece. E as pessoas desesperam. Olho para os homens que ainda trabalham, ainda que tenham pressa de chegar a casa. Que trabalham onde ninguém quer, mas ainda assim, trabalham, porque o Tejo não pode esperar. Olho para eles e sorrio. Só porque sim. Porque me bateram à porta do lado esquerdo do peito.
Hoje invejei estes homens. Gostava de um dia poder tocar no céu. Assim.
